Neste post vou falar sobre o viés da confirmação. Assim como nos posts A aleatoriedade e nosso desempenho e Vai medir? Cuidado com o resultado, as ideias desse post foram retiradas do livro O Andar do Bêbado. Muitas frases e expressões que uso abaixo são do próprio autor do livro, Leonard Mlodinow.
Para falar do viés da confirmação, preciso abordar dois conceitos: 1) o fato de que sempre tentamos identificar padrões no que vemos; 2) o fato de que precisamos achar que temos o controle sobre nosso ambiente.
A percepção humana não é uma conseqüência direta da realidade, e sim um ato imaginativo. A percepção precisa da imaginação porque os dados que encontramos em nossas vidas nunca são completos, são sempre ambíguos. Então o cérebro cuida de processar os dados, preenchendo lacunas com base em deduções. O nosso cérebro também procura identificar padrões e dar-lhes significado. Às vezes, esses padrões realmente têm significado, mas às vezes não passam de eventos puramente aleatórios que a gente precisa dar significado.

Olha, é um bebê!
A imagem acima não se parece literalmente com um ser humano, mas somos capazes de identificar até mesmo que o bebê está sorrindo, não é mesmo?!
Além de buscar padrões, as pessoas gostam de exercer controle sobre o seu ambiente, pois o senso de controle pessoal integra a visão que temos de nós mesmos e nossa noção de autoestima. Pesquisas mostram que é benéfico procurar maneiras de exercer controle sobre nossas vidas (ou de termos a sensação que exercemos). O pensamento determinístico nos dá segurança, gostamos de acreditar no sucesso baseado num raciocínio simples de causa e efeito. E muitas vezes menosprezamos a influência da aleatoriedade em nossas vidas.
A relação entre a necessidade humana de estar no controle e padrões aleatórios é que, se os eventos são aleatórios, nós não estamos no controle, e se estamos no controle dos eventos, eles não são aleatórios. Logo, existe um confronto entre nossa necessidade de sentir que estamos no controle e nossa capacidade de reconhecer a aleatoriedade. Esse embate é um dos principais motivos pelos quais interpretamos erroneamente eventos aleatórios, tentando dar significado a eles.
A necessidade de nos sentirmos no controle da situação interfere na percepção precisa de eventos. E muitas vezes, quando estamos diante de uma percepção, seja ela ilusão ou não, em vez de tentarmos provar que nossas idéias estão erradas, geralmente tentamos provar que estão corretas. Isso é chamado de viés da confirmação.
A compreensão humana, após ter adotado uma opinião, coleciona quaisquer instâncias que a confirmem, e ainda que as instâncias contrárias possam ser muito mais numerosas e influentes, ela não as percebe, ou então as rejeita, de modo que sua opinião permaneça inabalada.
Para piorar, além de buscarmos preferencialmente as evidências que confirmem nossas noções preconcebidas, também interpretamos indícios ambíguos de modo a favorecerem nossas idéias. Isso é um problema, pois os dados muitas vezes são ambíguos. Assim, ignorando alguns padrões e enfatizando outros, nosso cérebro inteligente consegue reforçar suas crenças mesmo na ausência de dados convincentes.
Quer exemplos? Tente conversar com uma pessoa que é a favor da pena de morte, ou com um ateu, ou com alguém que defende uma tecnologia com unhas e dentes. Todos os indícios mencionados por eles favorecerão suas crenças. Além disso, eles rejeitarão quaisquer comprovações contrárias. Todos nós somos assim em relação às nossas crenças.
O viés da confirmação muitas vezes tem consequências desagradáveis no mundo real e dos projetos. Quando um gerente de projetos é informado que um novo membro da sua equipe é combativo, ele tende a concluir que essa pessoa realmente é combativa, mesmo que não seja mais que a média das pessoas. Ou quando ele acredita inicialmente que um dos membros da sua equipe é menos inteligente que os outros, ele se concentra seletivamente em indícios que tendem a a confirmar sua hipótese.
A evolução do cérebro humanos nos tornou eficientes no reconhecimento de padrões, mas como nos mostra o viés da confirmação, estamos mais concentrados em encontrar e confirmar padrões que em minimizar conclusões falsas. Para não cair nessa cilada, duas dicas: aceitar que eventos aleatórios também produzem padrões; aprender a questionar nossas percepções e teorias.